Quanto tempo dura um avião comercial?
Responder à essa pergunta não é simples. Sendo
uma máquina muito cara, obviamente uma aeronave deve durar muito tempo, para dar
o melhor retorno financeiro possível ao seu operador. Todavia, ao final de
muitos anos, ou algumas décadas, o seu fim, certamente, chegará.
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Aeronaves retiradas de serviço sendo desmontados em Marana, Arizona |
O fabricante de uma aeronave, desde a fase de
projeto, estima um limite de vida útil de suas aeronaves. Vários ítens, como
estruturas, segurança, economia e exigências legais, influem na determinação da
durabilidade de uma aeronave comercial.
A durabilidade da estrutura da aeronave é um
fator fundamental para se estabelecer a sua vida útil. Uma aeronave sofre muitos
tipos de esforços quando está em operação: pousos, turbulências, acelerações
(fator carga), pressurização e despressurização, manobras, e outros.
A estrutura é feita para suportar tais
esforços, mas não vai poder suportá-los para sempre, há um limite prático para
isso.
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Após décadas de uso, o desmonte |
Os engenheiro que projetam uma aeronave sabem
que tipo de operação a aeronave vai fazer, as características do material de que
é construída, os esforços que vai sofrer e podem estimar quanto tempo a aeronave
pode voar sem sofrer reparos maiores. Mas os engenheiros sabem também que
nenhuma máquina dura eternamente, e que vai chegar a um ponto no qual os reparos
serão, tecnicamente ou economicamente, inviáveis.
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Velha fuselagem repleta de reforços estruturais |
A estrutura de uma aeronave sofre danos,
durante o uso, que comprometem seu desempenho e segurança com o decorrer do
tempo. Entre os principais problemas que afetam as estruturas, dois merecem
destaque especial, a fadiga de material e a corrosão.
A fadiga é um processo físico, decorrente de
esforços repetitivos no material. Se uma pessoa pegar um pedaço de arame de aço,
por exemplo, e dobrá-lo repetidas vezes, ele vai se quebrar. O mesmo pode
acontecer com todas as peças metálicas e algumas não metálicas dos aviões.
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Dano típico em um componente causado por fadiga |
As partes estruturais de um avião mais sujeitas
à fadiga são as longarinas das asas, as estruturas de apoio dos trens de pouso e
as fuselagens pressurizadas.
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Linha das janelas reforçada por chapas sobrepostas em um Boeing 737 |
As longarinas das asas são um ótimo exemplo do
efeito de fadiga de material, já que, enquanto o avião está voando, as asas
sustentam o peso do avião, e enquanto o avião está no solo, é o avião que
sustenta o peso das suas asas. São esforços de flexão em sentidos opostos, que
se repetem a cada voo que o avião faz. Como as peças que suportam esses esforços
da asa são as longarinas, elas estão sujeitas à fadiga depois de um certo tempo
de operação.
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Lockheed C130 perdendo as asas por falha das longarinas |
Embora o tempo no qual a fadiga das longarinas
ocorre seja previsto pelos engenheiros, às vezes ocorre falha prematura, e com
resultados catastróficos. Falhas prematuras ocorrem geralmente por carga
excessiva, ultrapassagem de limites operacionais de velocidade ou manobra e
operação em condições não previstas pelos fabricantes, mas podem ocorrer também
em condições normais de voo, por erro dos projetistas ou por deficências de
material.
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Um grande reforço estrutural, logo abaixo da porta |
Substituição ou reparo de longarinas afetadas
por fadiga são procedimentos extremamente dispendiosos, e muito raramente são
viáveis economicamente, o que condena a célula inteira para o uso e força a
retirada definitiva de serviço da aeronave.
A fadiga nas fuselagens pressurizadas ocorre
com muita frequência, pois uma aeronave comercial é pressurizada e
despressurizada a cada voo, causando esforços em milhares de peças que compõem a
fuselagem. É natural que ocorra fadiga, especialmente em aeronaves de voo
doméstico ou regional, que pousam e decolam várias vezes no mesmo dia.
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Reforço estrutural sendo aplicado em uma aeronave |
A fadiga na fuselagem causada pela
pressurização é tão relevante que as aeronaves comerciais possuem limites de
operação por ciclos de voo, e não por horas de operação. Cada ciclo corresponde
a uma decolagem, um voo e um pouso, correspondendo a uma pressurização e a uma
despressurização da cabine.
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DC-10 sendo desmontado. Reparem nos reforços aplicados ao longo do tempo |
Uma aeronave de porte médio, como um Boeing 737
ou um Airbus A320, por exemplo, terá um número de ciclos muito mais próximo ao
número de horas de voo do que um jato grande, como um Boeing 747, que faz voos
de muitas horas em rotas internacionais. Teoricamente, a fadiga por
pressurização deveria ser muito maior nas aeronaves de porte médio mas, como as
deformações na fuselagem, resultantes da pressurização na cabine, são maiores
nas aeronaves de grande porte, essas sofrem mais fadiga por ciclo que uma de
porte médio.
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reforços estruturais aplicados em grande quantidade em uma aeronave Boeing 737-300 |
Como, em geral, cada ciclo corresponde a um
pouso completo, a fadiga nas estruturas que suportam os trens de pouso também é
maior nas aeronaves de porte médio. Por isso, os projetistas colocam estruturas
reforçadas nesse tipo de aeronave, para evitar que danos de reparo dispendioso
encurtem a vida útil do avião.
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Chapa de alumínio totalmente contaminada pela corrosão |
Além da fadiga de material, outro grande fator
limitador da vida útil do avião é a corrosão. A corrosão é um processo químico
que afeta especialmente as estruturas metálicas, mas que pode atingir qualquer
tipo de material, incluindo composites, plásticos, borrachas e equipamentos
eletrônicos.
Corrosão intergranular em uma peça de aço inoxidável |
A corrosão dos metais é a transformação desses
em outros compostos, em geral óxidos, por exposição direta ao ar ou por
processos eletroquímicos ou eletrolíticos. Essa transformação degrada os metais
e suas ligas e diminuem drasticamente a sua resistência mecânica.
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Corrosão intergranular em uma liga de alumínio |
Embora as superfícies metálicas dos aviões
sejam protegidas por pintura, anodização ou produtos químicos, com a passagem
do tempo essa proteção perde a eficiência e as estruturas podem sofrer corrosão,
comprometendo a sua vida útil. Como ligas de alumínio podem sofrer corrosão em
sua estrutura molecular interna, a chamada corrosão intergranular, o risco de
ocorrer falhas catastróficas é grande em aeronaves mais antigas e/ou expostas a
condições adversas, como atmosfera salina e úmida, por exemplo.
A corrosão intergranular, uma das formas mais
destrutivas de corrosão, não é exclusiva das ligas de alumínio, pois ocorre
também com o ferro e o aço, inclusive o aço inoxidável.
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Resgate dos passageiros do Boeing 737 da Aloha |
Um exemplo clássico de acidente relacionado
tanto com a fadiga quanto com a corrosão foi o ocorrido com o Boeing 737-200
matriculado N73711, que fazia o voo 243 da Aloha Airlines em 28 de abril de
1988. Essa aeronave perdeu grande parte da fuselagem, na parte dianteira da
cabine de passageiros. Apesar do grande dano, os pilotos conseguiram pousar a
aeronave no Aeroporto de Kahului, no Havaí. O nariz baixou 5 graus, os cabos de
comando ficaram quase travados, mas o pouso foi bem sucedido. Uma comissária,
Clarabelle Lansing, estava recolhendo o serviço de bordo e acabou sendo sugada
para fora do avião. Foi a única vítima fatal, mas 65 passageiros acabaram
sofrendo ferimentos médios e leves.
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O pesado dano no Boeing 737 da Aloha |
O Boeing da Aloha foi sucateado. A falha fatal
foi consequência tanto da corrosão marítima quanto da fadiga. O avião tinha nada
menos que 89 mil ciclos, voados em geral a baixa altura acima do oceano no
arquipélago do Havaí, uma atmosfera altamente salina e corrosiva. Foi uma
combinação fatal, mas que deixou grandes ensinamentos.
Quando uma aeronave vai ficando mais velha,
torna-se necessário executar custosas e demoradas inspeções e reparos nas partes
danificadas. É usual reforçar o revestimento da fuselagem, por exemplo, com
chapas sobrepostas às chapas danificadas, o que resolve o problema, mas cria
outro, pois acrescenta mais peso ao avião.
Aeronaves muito antigas podem ter sua
capacidade de carga e de passageiros reduzida, devido ao peso dos reforços
estruturais e reparos introduzidos na estrutura, ao longo da sua vida
útil.
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Grande número de reforços em um Boeing 747 desativado, hoje em um museu |
O resultado prático do envelhecimento do avião
é o custo cada vez mais alto de manutenção e a disponibilidade para o voo cada
vez menor. Embora isso possa ser parcialmente compensado por preços de aquisição
ou de leasing menores, chegará certamente a hora em que a empresa não mais
conseguirá manter a aeronave em operação.
Exigências legais e ambientais também podem
trazer problemas para manter aeronaves antigas em voo, assim como Diretrizes de
Aeronavegabilidade (AD - Airworthiness Directives) emitidas pelos
fabricantes. Se o custo de se modificar ou reparar a aeronave, para que a mesma
se adeque aos requisitos legais ou para cumprir ADs, for muito elevado,
certamente compensará mais desmontá-la para aproveitamento de componentes ou
vendê-la como sucata.
Uma preocupação adicional com as velhas
aeronaves veio com o acidente do voo TWA 800. Essa aeronave era um velho Boeing
747, que explodiu no ar após decolar de Nova York, sem qualquer aviso, em 1996.
O acidente foi causado pela explosão do tanque central, que estava quase sem
combustível. O tanque, superaquecido pelas packs do sistema pneumático,
estava repleto de vapor altamente inflamável, e uma faísca elétrica, resultante
de cabos com isolamento corroído, provocou uma explosão catastrófica.
Verificou-se, depois, que poderiam haver de 220 a 2.000 fissuras nos cabos
elétricos de uma aeronave tão antiga quanto o 747 da TWA, que tinha 26 anos de
operação. Isso era devido à corrosão do revestimento dos cabos.
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Fuselagem do Boeing 747 da TWA, reconstruída depois do acidente, durante as investigações |
O acidente do voo TWA 800 provocou imediata
reação das autoridades, fabricantes e operadores de aeronaves, que passaram a
considerar o cabeamento elétrico com mais atençao, em seus programas de
manutenção dos chamados "jatos geriátricos".
Com o crescente desenvolvimento de motores mais
econômicos e mais silenciosos, equipamentos eletrônicos de navegação,
comunicação e gerenciamento de voo mais avançados, torna-se vantajoso para a
maioria das empresas substituir as aeronaves mais antigas, exceto se a
capacidade financeira da empresa não puder suportar os custos de aquisição ou
leasing mais altos de uma aeronave nova.
Passageiros geralmente não gostam de voar em
aeronaves antigas, e o destino de muitos aviões bem voados é ser convertido para
levar carga. Voos de carga são rentáveis e não sofrem tantos prejuízos por
atrasos e cancelamentos quanto os voos de passageiros.
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Airbus A300 sendo convertido em cargueiro. Notem os reforços aplicados na fuselagem, em verde |
A retirada de serviço e o desmonte da aeronave
pode ocorrer prematuramente. O principal motivo para isso é o alto valor dos
motores e outros componentes que, se retirados da aeronave e vendidos, podem
render mais do que o valor da aeronave inteira. Uma aeronave Boeing 777-200, que
voou pela British Airways como G-ZZZE e pela Varig como PP-VRD, foi desmontada
em 2007, em Walnut Ridge, Arkansas, USA, pois era de um modelo de curto alcance,
com mercado restrito, e que valia mais em componentes do que inteira. Tinha
apenas 11 anos de uso quando foi desmontada.
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Fuselagem do primeiro Boeing 777 a ser desmontado, em Walnut Ridge, Arkansas |
A retirada prematura de serviço de aviões
comerciais pode acontecer também em razão de evoluções tecnológicas. Um exemplo
bem claro disso aconteceu no início da década de 1960, quando os grandes aviões
a pistão de voo internacional, como os Lockheed Super Constellation e Douglas
DC-7, foram substituídos pelos jatos. Grandes demais para serem utilizados como
aviões domésticos, tiveram vida útil extremamente curta, de cinco anos ou até
menos.
Em geral, a vida útil prevista para uma
aeronave construída hoje é de cerca de 30 anos. É bem maior que a prevista para
aeronaves mais antigas, e pode ser prorrogada no futuro. Afinal, algumas
aeronaves antigas tiveram uma sobrevida muito longa, durando muito mais tempo
que o previsto pelos projetistas. São exemplos de aeronaves longevas os Boeing
707, 727 e 737, e os Douglas DC-8. Alguns exemplares já passam dos 40 anos de
uso e ainda permanecem em serviço
http://culturaaeronautica.blogspot.com/
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