Telmo Schoeler
Tendo tido o privilégio de
acompanhar parte da vida desta emblemática empresa na condição de membro
independente de seu Conselho de Administração e, mais tarde, como integrante de
uma equipe de consultores chamados para construir uma solução quando ela estava
em fase acelerada de degeneração, sempre quis fazer um registro de alguns fatos
e trazê-los ao conhecimento público em face de realidades e situações
desconhecidas, despercebidas ou mesmo impensáveis para a maioria dos fãs que a
companhia sempre teve ao longo de sua história.
Fui postergando esses
comentários, mas diante de um fato judiciário recente de extrema relevância, minha alma
privativista e meu profundo sentimento de repúdio à socialização e rateio dos
erros políticos e do Estado me empurram inapelavelmente para o
computador.
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Ruben Berta |
A Varig foi uma idéia e
sonho de um empreendedor. Mas, como nos mostram exemplos pelo mundo afora, as
capacidades e habilidades para empreender não se confundem com as de gestor:
geralmente quem é bom num papel não o é no outro. Rubem Berta não foi exceção:
sua idéia foi boa, mas sua implementação e gestão nem tanto.
Pior do que isso, seu modelo
criou uma organização ingovernável. Para os que o definem como gênio costumo
contra argumentar que genial é aquilo que todos tentam desesperadamente copiar,
como o sistema da Microsoft, os computadores da Apple, a fórmula da Coca-Cola, a
bateria das escolas de samba. Ninguém jamais copiou o modelo da Varig, não
porque fosse um segredo, mas sim porque ninguém atento e conhecedor dos
princípios da Administração e da GovernançaRuben se envolveria em tamanha falta
de lógica, bom senso e responsabilidade acarretada por uma fórmula comunista de
poder e gestão, sem acionista responsável e imputável, privilegiando a
antiguidade e a política em detrimento à meritocracia, eficiência, produtividade
e resultados. Nenhuma surpresa que a dinâmica do moderno mundo empresarial a
matou.
Como liberal não posso
deixar de fazer esses registros e comentários, embora gaúcho de origem e de
coração. Quando a companhia já estava a caminho do precipício, fomos chamados a
montar um plano para a sua salvação e recuperação. Sinteticamente, em conjunto
com Paulo Rabello de Castro, Jan Jarne e alguns outros experientes e
qualificados profissionais, montou-se uma proposta que além do óbvio alongamento
do passivo envolvia a transformação de dívidas em capital, além do aumento deste
via aporte de recursos por um investidor estratégico internacional do ramo,
junto com um investidor financeiro. Claro que isto seria condicionado à troca de
gestão e gestores, bem como acarretaria a perda de controle acionário por parte
da Fundação Rubem Berta. Nada disso era fora do alinhamento com os preceitos
internacionais já vigentes e posteriormente normatizados pelo Decreto-lei 11.101
de 2005, ou seja, a nova lei de recuperação empresarial, cujo fundamento é a
preservação da empresa enquanto ente econômico e social, mas não necessariamente
a preservação da estrutura societária. Para ser claro, muda-se a propriedade,
mas preserva-se a empresa, nos moldes aplicados à Gradiente, Aracruz, Perdigão e
tantas outras.
Sendo explícito, preservar-se-ia a empresa no
interesse da ampla maioria de seus credores, clientes e funcionários, ainda que
a FRB perdesse o controle ou, eventualmente, até se retirasse integralmente da
sociedade. Nada mais justo, já que o patrimônio líquido era negativo e que,
portanto, tecnicamente falando, suas ações nada valessem.
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João Manuel Correia de Assunção e Maria Aparecida Fernandes Penha, Diretor Executivo e Coordenadora de Atendimento da Base Rio da Fundação Ruben Berta. A foto é de junho de 2008 e foi retirada daqui |
Em vez desta solução de
mercado, sem ônus para o pagador de impostos brasileiro, uma desastrosa
intervenção do Governo Federal e um incoerentemente duro posicionamento da
Infraero, Petrobrás e BNDES na condição de credores levou a empresa a uma
inexorável, mas despreparada condição de recuperação/falência. A posterior venda
parcial para a Gol pode ter sido boa para esta, mas certamente foi nefasta para
os credores e contribuintes.
A falência fora de
parâmetros de solução de mercado, além de ter dilapidado ativos com valor apenas
enquanto operativos, fez virarem pó vários créditos direta ou indiretamente do
Governo, ou seja, este jogou pela janela dinheiro que nos pertence, a nós
pagadores de impostos. Por outro lado, fez com que alguns credores fossem buscar
judicialmente seus direitos como, por exemplo, funcionários com justa e pretensa
pensão e aposentadoria pelo fundo Aerus. Este, historicamente gerido com falha
ou falta de fiscalização por parte dos responsáveis órgãos de Governo, deixou
milhares a ver navios.
Recente decisão da Justiça Federal de Brasília decidiu que a
União terá de indenizar 10 mil aposentados pensionistas desse fundo. Ou seja, a
incúria, incompetência e desleixo de órgãos do governo baterão no caixa da
União, sendo forçoso lembrar que a “União” tem poucas formas de gerar seu caixa:
tira dinheiro de nosso bolso via tributação/taxação, ou emite títulos que drenam
recursos que seriam aplicados em coisas muito mais produtivas, ou, então, emite
moeda gerando inflação, o que é uma perda coletiva com especial influência sobe
os mais pobres.
Em síntese, o Governo brinca
de administrar e nós pagamos a fatura. Como sempre. Aí dá para entender a fúria
estatizante deste Governo. Se a lógica fosse privativista, os sócios usariam a
AGE para demitir o Conselho e a Diretoria. Quem sabe um dia a ficha cai e os
“acionistas” fazem isso nas urnas.
Título e Texto: Telmo Schoeler é administrador (UFRGS),
Master of Business Administration – MBA – (Michigan State University – USA), com
diversos cursos de extensão em gestão, governança corporativa, planejamento,
finanças, marketing e qualidade, no Brasil, USA (Southern Connecticut University
e Yale University) e Inglaterra (City of London). Possui 47 anos de prática
profissional, metade exercendo funções executivas de diretoria e presidência de
empresas nacionais e estrangeiras na indústria, comércio e serviços, incluindo
bancos nacionais e internacionais nas áreas de crédito, investimentos, mercado
de capitais e fusões & aquisições. É sócio-fundador e Leading Partner da
Strategos – Strategy & Management, criada em São Paulo em 1989, bem como
fundador e coordenador da Orchestra – Soluções Empresariais, a primeira e maior
rede de organizações multidisciplinares de assessoria em gestão empresarial.
Membro ou Presidente de diversos Conselhos de Administração e Conselhos
Consultivos de empresas brasileiras – de capital aberto ou não – e de
subsidiárias de companhias internacionais.